Comunidade quilombola no Espírito Santo é seqüestrada enquanto se preparava para comemorar o dia da [16/11/2009]

Sapê do Norte, 12 de novembro de 2009.

35 quilombolas do Sapê do Norte foram seqüestrados durante mais uma operação

irregular da justiça capixaba. Na manhã do dia 11 de novembro, enquanto se preparavam

para o trabalho, as famílias quilombolas de São Domingos foram abordadas por mais de

cem policiais fortemente armados com metralhadoras, cavalos e cachorros. Nossas casas

foram invadidas e os nossos familiares foram agredidos, insultados e algemados

enquanto nossos pertences eram reviradas sem que nenhum documento de prisão fosse

apresentado.

O mandato de busca e apreensão “de objetos”, expedido em setembro pelo juiz Marco

Antonio Barbosa de Souza (Conceição da Barra) apenas foi executado às vésperas do

Festival do Beiju data em que a comunidade vai comemorar o Dia da Consciência Negra

e a comunidade de Serraria e São Cristóvão ainda comemorava a publicação da portaria

de Identificação de seu território.

Nós comunidades quilombolas do Sapê do Norte lutamos para reconquistar nossos

territórios enfrentando a resistência do governo capixaba, o Movimento Paz no Campo, o

agronegócio da celulose e cana, os órgãos ambientalistas, e os órgãos florestais de

governo que não repassam informações sobre as terras devolutas ocupadas

irregularmente no Sapê do Norte.

Nós as comunidades quilombolas no Espírito Santo enfrentamos a discriminação

institucional que devolve anualmente milhares de reais das verbas da educação, saúde e

desenvolvimento econômico a nós destinadas, mas por outro lado implanta obras de

impactos diretos sem consulta às nossas comunidades como agronegócio, gasoduto,

exploração mineral, lixão e exploração de petróleo.

Com a última ação que viola frontalmente os nossos direitos humanos das comunidades

quilombolas, velhos, deficientes físicos e visuais, adolescentes, foram seqüestrados por

12 horas com um aparato que nos lembraram o tempo da escravidão: violência policial,

cavalos e cachorros lançados sobre nós, enquanto trabalhávamos e lutávamos pelo

nosso direito constitucional.

Por mais uma vez o governo capixaba desrespeita a Constituição Federal, o Decreto 4887

e a Convenção 169, obstruindo com violência física e simbólica o processo de

identificação e titulação de nossos territórios que ocupamos por várias gerações. Ao

mesmo tempo os órgãos de governo impõem pesadas multas e ameaças de prisão às

atividades de subsistência das comunidades quilombolas que hoje contam com mais de

oitenta quilombolas processados judicialmente.

Desejamos que nossa liberdade se complete com a titulação de nossos territórios, que

nossas expressões culturais sejam respeitadas, que tenhamos terras para plantarmos

nosso futuro, que as florestas voltem a ser parte de nossa vida, que nossos córregos, hoje

secos, voltem a jorrar em abundância, que nossas crianças não tenham nem medo nem

vergonha de se identificar como negros e quilombolas neste estado.


Comissão Quilombola do Sapê do Norte